top of page

Quando Atenção vira Comunidade!

Sou apaixonado por futebol, e acompanhar a Copa do Mundo de perto tem me dado muito mais do que só entretenimento, tem sido aula de estratégia.


Além do futebol em si e a qualidade técnica das seleções, o que tem me chamado muito atenção é o que tem acontecido nas arquibancadas. A Noruega com seus Vikings remadores criando um ritual coletivo hipnótico. A Inglaterra transformando Hey Jude e Wonderwall em coral de milhares de vozes. A Argentina, com uma torcida que parece menos uma nação e mais uma seita em torno do seu guru Lionel Messi. A França com a Marseillaise ecoando em uníssono, arrepiando até quem não entende uma palavra de francês.


Tudo isso faz barulho nas redes. Viraliza. Gera atenção. Mas o que está acontecendo por baixo é algo muito mais poderoso do que engajamento, é a criação de comunidade. E é exatamente aí que está o paralelo com o mundo corporativo.


Uma empresa nada mais é do que um grupo de pessoas jogando em conjunto para alcançar um resultado. Quanto mais coesas, motivadas e orquestradas, melhor o desempenho. Mas existe uma dimensão que a maioria das organizações ignora ou subestima: o que acontece quando você começa a tratar seus consumidores como torcedores?


Não como alvos de campanha. Não como dados num CRM, mas como torcedores, pessoas que vestem a camisa, que defendem a marca mesmo quando ninguém está olhando, que recrutam novos membros sem que você precise pedir e que vendem literalmente o seu produto ou serviço.


Quando executivos entendem isso e passam a olhar para sua cadeia de valor com consumidores, parceiros e revendedores como parte do mesmo time, do mesmo clube, algo muda. A interação deixa de ser transacional e passa a ser relacional. O senso de pertencimento cresce. A confiança se instala. E a marca começa a se mover de forma espontânea no mercado, carregada pelas próprias pessoas que fazem parte desse ecossistema.

E os dados falam por si só.


Consumidores que participam ativamente de uma comunidade de marca gastam 2,5 vezes mais do que os que não pertencem a nenhuma. A Starbucks é um exemplo claro: os membros do seu programa de fidelidade respondem por 40% de toda a receita nos EUA e gastam, em média, 2,5x mais ao ano do que clientes comuns. A Sephora vai além, seus "superfãs" mais engajados chegam a gastar 10 vezes mais do que o cliente médio.


A lealdade emocional é aquela que vai além do desconto e se ancora em valores e identidade. Não é moda. É tendência estrutural. As pessoas querem se conectar com marcas que representam algo, não apenas vendem algo.


Aqui está a armadilha em que muitas marcas caem, muitas confundem comunidade com ação de marketing. Lançam uma campanha, fazem barulho por 90 dias, e depois o movimento morre porque nunca teve raízes e continuidade de troca, de fala e de entendimento do seus diferentes públicos.


Comunidade de verdade é diferente. Ela é construída ao longo do tempo, em torno de uma identidade compartilhada e não de uma promoção. 62% das pessoas entram em uma comunidade porque querem pertencer, não porque querem comprar. Esse é o ponto de virada que separa marcas que criam audiência de marcas que criam movimento.


Outro dia, conversando com meu filho mais velho, ele me apresentou uma teoria que não conhecia e que aprendeu na aula de história, que é a "Teoria dos galhos". Ela reforça o conceito que um galho sozinho quebra fácil, mas quando existe toda uma ramificação de galhos entrelaçados, fica muito mais difícil romper qualquer um dos elos. É exatamente isso que uma comunidade faz por uma marca. Cada consumidor, distribuidor, vendedor, parceiro engajado é um galho. Cada conexão entre eles é uma ramificação. E quanto mais densa essa rede, mais resiliente e inabalável se torna o ecossistema como um todo.


E quando esse movimento existe, ele se retroalimenta. Membros ativos recrutam novos membros. Conteúdo gerado pelos usuários (UGC) converte melhor do que qualquer campanha produzida internamente. O boca a boca de um membro engajado tem 10 vezes mais peso do que um anúncio pago. A comunidade torna-se, ela mesma, um motor de crescimento orgânico, escalável e praticamente impossível de ser copiado pelo concorrente.


Voltando ao futebol: o que faz a torcida da Argentina ser a mais temida do mundo não é o número de pessoas. É o nível de pertencimento. Eles cantam sem parar porque acreditam. Eles aparecem porque são parte de algo. E quando Messi entra em campo, ele não joga sozinho carrega milhões de pessoas consigo.


As melhores marcas do mundo entenderam essa lógica. Apple, Harley-Davidson, Nike não vendem produtos. Vendem identidade. Constroem tribos. E essas tribos defendem, divulgam e compram e sustentam a marca em momentos que nenhum orçamento de mídia conseguiria cobrir.


A pergunta que fica para qualquer liderança é: os seus consumidores são compradores ou são torcedores?

Se a resposta for compradores, você tem uma empresa. Se a resposta for torcedores, você tem algo muito mais valioso: uma comunidade. E no mercado que vem por aí, mais fragmentado, mais digital, mais orientado por confiança do que por alcance, quem tiver comunidade terá vantagem competitiva duradoura.

Miguel Góes

CMO e Sócio da MM12

Sou apaixonado por futebol, e acompanhar a Copa do Mundo de perto tem me dado muito mais do que só entretenimento, tem sido aula de estratégia.

Inscreva-se na nossa newsletter!

Muito mais que fidelidade. Acreditamos que programas de fidelidade são o ponto de partida de relações transformadoras entre pessoas e marcas.

Este é um espaço criado para trazer notícias e ideias sobre o universo do loyalty.

bottom of page